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domingo, 6 de abril de 2014

Cotinha na segurança: Quem esta falando a verdade?

A estrutura da segurança pública que é apontada pelo Comando da Polícia Militar é bem diferente do que é visto pela população e o efetivo nas ruas. Na manhã da última sexta-feira (4), a TRIBUNA DO NORTE fez uma ronda nas principais unidades de polícia da zona Sul de Natal e constatou deficiência no número de viaturas circulando; delegacias com infraestrutura precária; postos policiais fechados e equipamentos essenciais, como rádio e colete a prova de balas, completamente desgastados. Segundo relatos dos policiais entrevistados, só três viaturas do 5º Batalhão estavam rodando naquele dia. Confira também exemplos de comunidades que se uniram para bancar a segurança do bairro.

Bancando a segurança

Satélite

Considerado um dos maiores bairros da América Latina, com cerca de 30 mil moradores, Cidade Satélite possui apenas uma viatura para fazer o patrulhamento de toda a região. A violência cresceu: o índice de assaltos chega a dez por dia. O representante comercial Lívio de Melo Silva, de 44 anos. Em fevereiro, dois bandidos armados o assaltaram na porta de casa, às 15h, e levaram o carro. Ele tinha terminado de pagar o financiamento do veículo no dia anterior. A casa de Lívio fica duas ruas depois do posto da 3ª companhia do Satélite. 

Emanuel Amaral
Satélite: dos três postos, apenas um está em pleno funcionamento. Foi reformado por moradores que arrecadaram R$ 9 mil para as melhorias

“Na hora liguei para o posto e o policial até veio, de camisa e calção, mas ele não tinha viatura para ir atrás. Boa vontade ele até teve”, comenta o representante. O carro nunca foi encontrado.

Os moradores do bairro arrecadaram R$9 mil para reforma e pintura do prédio de alvenaria; aquisição de imóveis e alimentação dos policiais. Segundo Anísio Barbosa, presidente da associação de moradores do bairro, a medida foi tomada após uma audiência pública realizada com os representantes da segurança do estado. “Vamos realizar outra audiência, no dia 10 de abril, para discutir limpeza e iluminação com a Prefeitura. Não adianta ter policial se falta luz nas ruas”, afirma.

O soldado Gleybson Luiz foi realocado do cargo administrativo que ocupava na Junta Médica da PM, e agora ocupa o plantão no posto do Satélite. Segundo ele, a população não deixa faltar nada. “Eles ajudam na limpeza e na alimentação. É uma boa parceria”, salienta.

Pitimbu

Também no Satélite, o posto da 3ª Companhia, que cobre toda a área do Pitimbu, enfrenta a deficiência de viaturas, munição e coletes a prova de balas. Além do desgaste da estrutura do prédio, que conta com goteiras e buracos, os 42 policiais da companhia também precisam fazer uma “cotinha” para manutenção dos carros, compra de material de tinta para impressora e folhas de papel. Os três coletes disponíveis na companhia já estão com a parte externa totalmente desgastada, com o material de proteção exposto. Os policiais também reclamam da falta de munição, que é bancada do próprio bolso.

Pitimbu: os três coletes disponíveis na 3ª Companhia estão desgastados e sem condição de uso

“A maioria das unidades funciona assim: de acordo com a demanda do bairro, a viatura é direcionada para lá. É uma verdadeira dança das cadeiras. A gente sempre dá um jeito de fazer a manutenção, porque se dependesse do Governo do Estado a PM já teria parado”, desabafou um policial, que preferiu não ser identificado. 

Morro Branco

Em Morro Branco, a conta para garantir segurança foi muito maior: desde setembro de 2014, os moradores desembolsaram R$25 mil para montar e manter um posto completo na avenida Brigadeiro Gomes Ribeiro. Além de reformarem um trailer e uma viatura, os moradores bancam a alimentação e alugaram um apartamento no bairro para que os policiais possam contar com banheiro e quarto.

Mário Emerenciano, presidente da Associação Potiguar em Defesa da Cidadania, é morador do bairro há 25 anos. Ele diz que a gota d’água foram os dois assaltos seguidos que fizeram à sua casa. “A minha casa foi assaltada no meio da tarde, quando minha filha estava em casa, e dois meses depois de terem arrombado e feito um arrastão completo”, conta Mário. Até setembro, o conjunto não possuía nenhum tipo de posto policial. “Os moradores estavam tão cansados da insegurança que conseguimos reunir R$5 mil em três horas”, emenda.

Emanuel Amaral
Morro Branco: trailer reformado pelos moradores do bairro

O subcomandante do 5º batalhão, Egitto Freire, que também presta serviço no novo posto de Morro Branco, afirma que praticamente não existem novas ocorrências no bairro. “Quando se faz a ação preventiva, como é o nosso caso, raramente temos ocorrências. Acredito que a parceria entre a comunidade e a PM foi positiva”, opina. Apesar de também fazer a ronda em Nova Descoberta, a viatura possui a identificação “Morro Branco” e, apesar é estacionada na frente da casa do presidente do conselho comunitário todas as noites.

Para o PM reformado Edmilson Lima, morador do bairro há 18 anos, que já teve parentes assaltados no bairro, afirma que é preciso lutar por mais melhorias – nem que seja preciso tirar do próprio bolso. “Não tivemos mais nenhum assalto, algo que não tínhamos em anos. Temos que lutar, agora, por mais carros e oficiais”, aponta.

Sem estrutura

Neópolis

O pequeno posto policial de Neópolis conta com apenas dois policiais que fazem o turno 24h e folgam dois dias. A única viatura do bairro também é responsável por fazer a ronda nos bairros de Candelária, Serrambi e Nova Parnamirim. O único rádio disponível estava quebrado, e os soldados não tinham como entrar em contato com o veículo em ronda caso houvesse alguma notificação.

Emanuel Amaral
Neópolis: posto dispõe de apenas dois policiais em turno de 24 horas e uma única viatura

Cidade Satélite

Já em Cidade Satélite, dos três postos policiais espalhados pelo bairro, apenas um está em pleno funcionamento. Restaurado pela população no início do ano, o posto localizado na etapa dois do bairro, na rua Cumaru. Enquanto isso, outros dois postos – um na rua Abreu e Lima e outro na avenida Linhares – estão fechados há mais de dez anos. Segundo o comando do 5º Batalhão, além da falta de infraestrutura dos prédios (a reforma compete à Secretaria Estadual de Segurança e Defesa Social), não há efetivo suficiente para equipar todos os postos.

Fonte: Tribuna do Norte

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